
Memória, óleo, guache, gravuras e ciclistas disponíveis para contemplação e reflexão na exposição da Fundação Iberê Camargo
FIC
Experiência da pintura
Apresentada primeiramente no Espaço Cultural Unifor, da Universidade de Fortaleza, de 30 de abril a 2 de agosto deste ano, a exposição Iberê Camargo: uma experiência da pintura acaba de ser aberta na sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Com um total de 67 obras, entre pinturas, guaches, gravuras e desenhos, a mostra olha para a produção do artista através da experimentação da forma.
Na conversa abaixo, Virginia H. A. Aita fala sobre sua proposta curatorial e os objetivos deste novo olhar sobre o Acervo da instituição.
Quais são os pressupostos teóricos com que você trabalha na exposição?
Essa curadoria foi, sobretudo, instigada pela idéia de uma estética na obra de Iberê Camargo, e da qualidade estética como algo aliado a uma qualidade da experiência, num sentido fenomenológico. Isto implicou em fazer um recorte da obra levando em conta uma démarche existencial e a peculiaridade de uma trajetória que converteu a experimentação da forma no seu método. Isso, sem dúvida, é mais que a noção de "experimentalismo da pintura", já que supõe uma narrativa de acontecimentos e contingências que conferem textura dramática e poética à obra. Como se trata de uma retrospectiva, que abrange toda a extensão da sua vasta produção, um critério que a perpassasse e de certo modo permitisse caracterizar sua assinatura me pareceu o mais plausível. Além do que, esta é uma questão recente do debate teórico, que tenta reintroduzir esse aspecto da experiência, negligenciado pelas semânticas e teorias da crítica de arte na segunda metade do século 20. Me parece que Iberê Camargo reacende essa questão de modo lapidar para a compreensão não só do moderno tardio, mas ilumina a complexidade mesma do conceito de arte, retroagindo reflexivamente sobre sua história.
Para esta mostra, qual o recorte que você procurou dar ao acervo da Fundação?
Naturalmente, privilegiando um percurso da obra que tornasse essa idéia de uma fenomenologia da pintura explícita, não só abordando momentos distintos de sua produção e as interlocuções mais relevantes. Isso significou, ainda, mostrar como sua experiência prolixa, que se deixou marcar pelos grandes momentos da arte ocidental, da tradição clássica ao avant-garde, se imbricava com o campo de experimentação disposto pela abstração e planaridade modernas. Mas, sobretudo, em acentuar que a particularidade de sua poética residiu numa dramaturgia da pintura, em que a liberdade de invenção formal e a expressividade são centrais e correlativas.
Como você escolheu as obras? O que procurou privilegiar? Há algum destaque na exposição?
Esta foi uma tarefa difícil, não só pela profusão de trabalhos, mas, acima de tudo, pela sedução das obras em si. Assim, além de afinidades eletivas, o conceito que vem me interessando, e que já mencionei, de uma estética como fenomenologia pontuou a seleção. Acho que a exposição funciona como um todo orgânico com ênfases pontuais. Se há algum destaque é talvez o modo como a forma é inflectida e imantada pela própria existência, definindo assim um percurso. Sob essa perspectiva, a fase final, que inclui uma reflexão ou meditação pictórica da obra como um todo, contém uma síntese adensada - o que, de certo modo, implica em dizer que Iberê não teria tido esta obra se não tivesse vivido esta experiência.
Uma experiência da pintura foi, primeiramente, concebida para o Espaço Cultural Unifor. Como foi adaptá-la para a sede da Fundação Iberê Camargo?
Na verdade, tivemos que repaginar a exposição, pois se trata de espaços com características muito diferentes. Na Fundação, o prédio de Álvaro Siza é muito exigente, pois já define um percurso e interage de forma mais ativa com as obras. Também foram tiradas da exposição os trabalhos pertencentes à Coleção Queiroz, o que tornou necessária uma substituição que mantivesse e ainda enfatizasse a integridade do conjunto, pensado como um percurso definido. Minha opção foi colocar obras de peso, como a série de gravuras belíssimas Estrutura em Movimento (1962), que dialoga imediatamente com a pintura Fiada de Carretéis (1960), destacando, assim, o intenso intercâmbio de meios e técnicas sempre a serviço de uma fatura pictórica.
Que novos significados esta exposição ganha ao ser exposta aqui, no espaço do artista, por assim dizer?
Acho que aqui fica mais em evidência o processo criativo de Iberê, que envolvia mais que execução, uma pesquisa ininterrupta a par da experimentação da forma em outros meios. Desse modo, as pinturas que assumem aqui um estatuto e um peso específico remetem sempre a uma sequência de estudos e experiências preliminares em guache, gravura em metal ou desenho. Também ficam marcadas fases distintas ou ciclos dessa produção, cada uma com um nexo próprio, que revelam uma agenda de temas e estratégias formais características, mas que, em última instancia, confluem para uma síntese final, adensada, que revela a formidável morfogênese da sua pintura.
SERVIÇO
Fundação Iberê Camargo
Av.: Pe. Cacique, 2.000 - Porto Alegre - RS
Tel.: (51) 3247-8000
Terça a domingo, das 12h às 19h
Quinta, 12h às 21h
Até o dia 29 de novembro de 2009.